Ora o rapaz não queria ser frade nem cuteleiro: aspirava ardentemente um officio mais prestadio ao genero humano infermiço: queria ser boticario.
Era esperto o moço, não só porque appetecia ser boticario; mas porque realmente era agudo de intendimento, ladino, sedento de saber tudo e propenso a correr mundo, tendencia, na verdade, incompativel com a quietação da almejada botica.
Aos quinze annos, Domingos sabia latim, cursava philosophia de Aristoteles com um insigne mestre da ordem franciscana, e lia os cartapacios pharmaceuticos do frade boticario do mesmo convento.
Participou Maria a seu irmão fr. Gaspar a inclinação do filho. Respondeu o prudentissimo tio que lhe não torcessem a vocação, por quanto em todos os misteres podia um bom christão servir o proximo e ganhar o ceo. E, em prova do seu applauso, mandou ir o sobrinho para Lisboa, afim de lhe arranjar mestre que o exercitasse e approvasse.
Foi Domingos Leite para a capital, e entrou como praticante na botica do Hospital Real, sob direcção de Estevão de Lima, o primeiro mestre de pharmacia entre os quarenta e trez boticarios de Lisboa.
Ao cabo do primeiro anno, o professor não tinha que lhe ensinar. Domingos intendia e aviava as receitas com rara destreza. A estatistica mortuaria, se não tinha diminuido, tambem não tinha augmentado. Todavia, o habil praticante mostrava-se descontente d'aquelle genero de vida, e de si comsigo resolvera encarreirar-se para outro destino mais adquado a umas vaidades do mundo que lhe estonteavam a cabeça de mistura com o cheiro nauseativo das drogas moídas no gral.
Frequentava a famosa botica Luiz das Povoas, provedor da alfandega, que se comprazia de conversar com Domingos Leite em coisas de lettras, mormente poetas latinos. O rapaz revelou ao provedor o seu desgosto da botica, e rogou-lhe que o empregasse na alfandega. Vê-se que já em 1636 os bons talentos portuguezes, as aguias do genio, pairavam sobre as prêas alfandegueiras, como hoje em dia succede com tanto litterato que prefere á gloria de rimar ao ar livre a athmosphera aziumada dos armazens, e o fartum engulhoso da matullagem.
De feito, Luiz das Povoas accedeu á petição de Domingos Leite, nomeando-o escrivão das «Fructas» com 40:000 reis annuaes de ordenado.
Volvido um anno, o escrivão das fructas confessou ao provedor que a sua vocação definida não era bem a alfandega; que semelhante vida lhe desagradava por monotona; que o seu espirito precisava de repasto mais poetico; em fim, que se sentia alli embrutecer com trabalhos em que a intelligencia andava grávida de cifras e cifrões, coisas indigestas para quem scismava em trechos de Virgilio ou estancias de Camões, quando a penna alinhavava a um tendeiro da rua de Quebra-Costas a conta dos direitos da alfarroba ou do cacáo.
—Que queres tu ser então, Domingos Leite?—perguntou-lhe o bom amigo.