—Estou gostando arrebatadamente da muzica, desde que vossa mercê me levou ás festas da capella real. Se eu podesse arranjar o emprego de môço da capella...

—Achas isso bom? Poucas ambições tens, rapaz!

—O que mais me encanta é o viver com os meus poetas, e ter alli á mão as delicias da musica. O ordenado é pequeno; mas setenta cruzados chegam e sobram. Lá ao diante, se eu grangear cabedal de saber para dar a lume algumas ideias que me cá refervem nos miólos, então darei gloria ao meu nome. Quanto a bens de fortuna, lá está meu pai na officina a ganhar-me o patrimonio. Sou filho unico, e com pouco heide ir onde vão os grandes.

—Olha tu que os grandes não começaram por môços da capella real...

—Bem sei; mas eu, quando desprender as azas, voarei do zimborio da capella, e irei poisar nas grimpas dos palacios.

—Vê lá se te aguentas no vôo, meu Icaro!—redarguiu o provedor—Cuidado comtigo que não tenhas de voltar á botica a manipular aquella herva bicha e o pastel de carne de gato com que me curaste das almorreimas...

—Não tenha medo, sr. Luiz das Povoas. Os homens da minha tempera tem fados esquisitos! Eu, ás vezes, sinto uns deslumbramentos que me cegam! Se eu não fosse filho de meu pai cuteleiro, e pudesse desconfiar da honestidade de minha mãe, havia de crer que o meu sangue girou já nas veias dos duques de Guimarães!

—Serás tu filho do real Encoberto D. Sebastião que se espera? Toma tento, Domingos, que não te fermente no miôlo a parvoice do rei da Ericeira ou do rei de Penamacor, ou do pasteleiro do Escurial...—volveu casquinando o provedor da alfandega—Vê lá se contendes com o sr. D. João, duque de Bragança, a ver qual dos dois é o Encoberto das profecias do Preto ou do Caldeirão, astrologo de Cascaes!... Emfim, rapaz dos meus peccados, eu fallarei ao sr. Miguel de Vasconcellos, e tu serás nomeado môço da capella real com setenta cruzados; e, depois, quando te sentires com voadoiros de servir, ála-te do zimborio da capella; mas guarda-te de avoares com azas de páo dadas por algum cioso dos que seguem as damas da princeza Margarida a ouvir as antigas cançonetas do Guerreiro, os motetes do duque de Bragança, e os tonadilhos de Diogo de Alvarado. ([Nota 1.ª]) Ora queira Deus!... És bem apessoado; tens-me uns requebros de poeta galan; lês muito pelo livro das Saudades de Bernardim Ribeiro, que os moços do monte de el-rei D. Manuel mataram a tiro na Rua Nova. ([Nota 2.ª]) Não vás tu pensar que o amor dá azas, e que o tracto com as Camenas te habilita a ser ruysenhor do paço!...

—A boa fortuna—replicou enfaticamente o moço—hade dar-m'a o engenho e a arte...

Se a tanto me ajudar, disse o Camões, e a nada o ajudou, nem sequer a envisgar de raiz o coração d'aquella dama da rainha D. Catharina!.. Chamavam-lhe a Bocca-negra da alcunha da mãe; mas meu pai, que a viu no mesmo dia em que o poeta a encontrou na egreja das Chagas, n'uma sexta feira da Paixão, em 20 de abril de 1542, disse-me que a menina era tão esbelta como trêda. Que farte a cantou o poeta com diversos nomes; até que ella, norteando o coração a mais substanciosos amores, tractou cazamento com outro e finou-se antes de realisar o intento. Á conta d'esta ingrata quatro vezes foi desterrado o nosso Homero. Primeiro, de Coimbra, onde estava a corte, para Lisboa. Veio a corte para Lisboa, desterraram-no para Santarem; depois para Africa, e por derradeiro para a India, d'onde voltou á mercê d'alguns passageiros. ([Nota 3.ª])