—Se V. Ex.ª tivesse modo de fazer chegar a minha filha á presença d'el-rei nosso senhor com um requerimento meu...
—Heide pedir licença a sua magestade, e espero alcançal-a. Dar-lhe-hei a resposta. Porém, suppondo que el-rei lhe nega audiencia ou lhe indifere o requerimento, dou-lhe um conselho. Vá para Madrid com sua filha. Seu marido de certo a não repulsará, se a senhora abrir o caminho ao perdão por intermedio da filha que elle adora. Se acontecer achal-o colerico, haja-se com discreta paciencia, dispensando-se de viver em commum com elle. Vossa mercê é bastante rica. Tanto lhe faz viver em Lisboa como em Madrid. Quadra-lhe o conselho?
—Sim, sr. marquez—assentiu Maria Isabel muito reanimada—E V. Ex.ª protege a minha ida?
—Heide conseguir que não lhe impeçam a passagem nas fronteiras, e dar-lhe-hei uma carta que esta menina hade entregar ao pai.
—E como heide encontral-o em Madrid?
—Antes de vinte e quatro horas saberei de Gaspar de Faria onde seu marido se alojou. Se chegar a ir, e reconciliar-se, recommendo-lhe com muita instancia que môva Domingos Leite a sahir de Hespanha. El-rei tem bons amigos em Madrid que lhe relatam pensamentos, palavras e obras dos portuguezes que lá vivem. Já cá é notorio que Domingos Leite, dominado pelo seu funesto amigo Roque da Cunha, concorre ás cazas mais suspeitas dos maquinadores da nossa escravidão. Sobre queda couce, diz o ditado. Não é assim que elle hade ter por si el-rei e os juizes. Por estas e outras rasões lhe aconselho, como bom amigo que ainda sou de seu marido, que em vez de ir a el-rei, passe a Hespanha; e depois, se Domingos Leite a quizer attender e á carta que eu lhe hei de dar, vão para França ou para Roma.
Nesta conjuntura entrou o secretario Antonio de Cavide, que fitou com ares de assombrado o bello rosto e garbosa compostura da dama desconhecida.
Maria Isabel, erguendo-se, disse á filha que beijasse a mão do sr. marquez, e sahiu.
—Quem é esta gentil fada?!—perguntou Antonio de Cavide—Eu nunca vi mais guapa mulher!
—É a esposa de Domingos Leite Pereira.