—Sua magestade houve por bem admittir a vossa mercê á sua real presença; queira entrar n'esta sala, e esperar el-rei nosso senhor.

A esposa de Domingos Leite com difficuldade se sustinha nas pernas, chegado o momento de se avistar face a face do rei: tremia de respeito como tremeria de pavor. A menina aconchegava-se d'ella olhando-a com susto, e circumvagando a vista assombrada pelas tapeçarias e colgaduras de ouro e prata, de veludo e damasco entre as quaes lampejavam contadores marchetados de ouro e marfim, grandes cofres abaulados de tartaruga e prata, bofetes torneados com feitios de dragos e serpentes, jarroens japonezes encimados das peregrinas flores que recendiam nos jardins do paço da Ribeira, redomas de christal, relogios de Inglaterra com primorosos relevos de esmalte, as pompas de toda a terra conglobadas n'aquelle palacio, que já então pompeava primasias sobre as mais esplendidas côrtes da Europa, graças á baixella da duquesa de Mantua, que nunca lhe foi restituida.

Posto que o tapete abafasse as passadas d'el-rei, Maria Isabel ouviu-o nas palpitações do coração; e já estava em joelhos, quando um sumilher da cortina correu o reposteiro com um ringido de aço estridente que, digamol-o assim, aggravava mais o terror do lance.

D. João IV entrou; o reposteiro ajustou-se outra vez aos batentes da ampla porta; e, n'este conflicto, a filha do burguez João Bernardes Traga-malhas cuidou que desmaiava, encostando a face esquerda ao volante que cobria a cabeça da menina.

Orçava então o rei pelos quarenta e tres annos. Não obstante as bexigas, que lhe alteraram notavelmente a gentilesa do rosto, conservava vivacissima a graça dos olhos azues, mais risonhos que os labios, nos escassos momentos em que o contentamento lhes transluzia desafogado da violenta caracterisação de rei suspeitoso. Era de estatura mean, e largo de espaduas, robustecido em lides fragueiras, despresador de inclemencias de tempo, quando nas monterias da tapada de Villa-Viçosa dispendia selvaticamente os melhores annos da existencia. Dá a perceber o conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes, no Portugal Restaurado, que D. João era tão desregrado na alimentação que anticipara a caduquez do corpo. O historiador aulico, se lhe dessem trella, e alforria no pensamento, assim como nos disse que no rei o trajar era pouco menos que rustico e sujo, communicar-nos-hia a intemperança do espadaúdo sugeito, cevando-se nas lubricidades que adelgaçam as mais maçorras e rijas compleições.

Não se pense, porem, que o rei de Portugal n'aquelle dia trajasse immundo ou denotasse na epiderme do rosto padecimentos de hydropesia. Vestia um pourpoint (gibão) de panno preto, refegado no peito, sem guarnições até baixo do joelho, como loba clerical, e a pescoceira da camisa derrubada sobre a gola d'aquella vestimenta que muitas vezes usava, da vil droga chamada estamenha. ([Nota 20.ª])

Os cabelos loiros, mas tosquiados quasi rentes, descampavam-lhe a fronte, relevada em proeminencias, que inculcariam talento, se a sciencia phrenologica de Spurzheim não fosse um lôgro nas cabeças da raça dos braganças, não collaboradas.

Calçava meia de sêda escura e sapato de veludo com um simples botão, sem os broches e orladura de ouro e perolas com que medianos fidalgos e até os pecuniosos da classe média se ajaesavam.

Como já vimos, Maria Isabel Traga-malhas esperava ajoelhada e perturbadissima a entrada d'el-rei.

Caminhando a passo vagaroso para ella, D. João IV parou a pequena distancia, e disse-lhe: