—Levantae-vos, senhora!
E como ella permanecesse em joelhos e anciada, o rei insistiu:
—Erguei-vos, que eu desejo ouvir-vos sem essa postura de adoração. Vamos! a pé!
Sua magestade poderia dizer alguma coisa mais regia, mais conceituosa, mais galan, ou, sequer, mais espirituosa, para arrolarmos com a outra do quadrupede da sinêta; mas não o arguamos de canhêstro ou pecco de phrases, dado que, a respeito da sua eloquencia, o referido conde da Ericeira nos diga que não costumando o rei a empregar as palavras mais polidas, usava d'ellas com tal arte, galantaria e agudeza que parecia fazia estudo do que em outros podera ser defeito.[4]
D'esta vez, cumpre desculpar-lhe a insufficiencia, dando-lhe foros de mero homem em presença da mulher que ultrapassava toda a bellesa imaginada.
Maria Isabel, apesar de ter meia face vellada no rebuço do capotilho—descortezia que ella ignorava por desconhecer ceremonias palacianas—deixava metade do rosto aos deleites da admiração, e a outra metade á curiosidade dos desejos, como diria na sua rhetorica farfalhuda Antonio Cavide.
Quando Maria se levantou, sem altear os olhos acima do estrado, acercou-se mais o rei, e poz a mão na face de Angela, dizendo:
—És muito galante, menina!
A mãe relançou a vista menos timida á face de D. João, e, como lhe encontrasse os olhos fixos, derivou logo os seus para a creança, absôrta na contemplação do rei.
—Sentae-vos, senhora—continuou, apontando-lhe uma cadeira, e olhando de esconso para o reposteiro, afim de certificar-se que ninguem lhe espreitava tão insolita cortezia ou tamanho abatimento da magestade.