—Quiz vender parte dos meus bens, e a justiça não m'o permitte nem permittirá ainda que meu marido assigne os contractos.

—Porque é essa a lei dos criminosos—volveu gravemente o rei—Vindes pedir-me que submetta a lei á minha vontade particular? O que não posso fazer como homem, n'este caso, tambem o não posso fazer como principe. Eu não subordino a justiça: sou-lhe subordinado. Porém, como homem, poderei prestar-vos um serviço, se o quizerdes acceitar. Dar-vos-hei meios para irdes a Castella; e emquanto lá os carecerdes, remediar-vos-hei.

Maria, pela primeira vez, encarou a fito o monarcha. Brilhavam-lhe as lagrimas nos esplendidos olhos. El-rei parecia olhal-a com o resguardo timido de vassallo a contemplar, reconditamente amoroso, a sua rainha.

—Eu queria—murmurou ella—levar a meu marido o que herdei de meus paes; mas agradeço a vossa magestade a esmola que me offerece.

—Não é esmola; é emprestimo. Quando a sentença remover os estorvos que vos privam de vender os bens, então me pagareis. Entretanto, sabeis se vosso marido vos receberá graciosamente?

—Não sei, meu senhor...

—Ouvi dizer que elle, desde a morte de certa pessoa, vos não fallára mais. É verdade?

—Sim, meu senhor.

—E esse despreso não impede que o ameis? Fallae-me verdade inteira, porque a vossa sorte me está prendendo extraordinariamente a attenção. Amaes Domingos Leite?

Deteve-se alguns momentos a interrogada, e respondeu com embaraço: