—Casei com elle por paixão, e foi a paixão que me cegou...—e aqui reteve-se vexada e confusa.
—Sei o que vos custa a dizer:—acudiu o rei—passae adiante, Maria Isabel.
A suavidade com que D. João proferiu os dois nomes parecia arrasar uma alta barreira, erecta entre os desiguaes interlocutores. Aquelle tom de benevola confiança—o vêr ella seu nome na memoria d'el-rei—deu-lhe umas largas á alma, uns assomos de vaidade, um desafôgo analogo ao dos pulmões que se impregnam de correntes de ar novo em recinto abafadiço.
—Dizei,—proseguiu elle—O desamor com que Domingos Leite recusou perdoar-vos uma culpa, que devia ser attenuada pela innocencia com que a praticastes, foi causa a que a vossa paixão se desvanecesse... Errei o meu juiso?
—É verdade, real senhor!.. Eu sei que fui criminosa em acceitar o seu galanteio; mas não o seria... se não fosse tão innocente.
—Ainda assim, é compaixão ou amor que vos resolve a procural-o em Hespanha?
—É esta creança que chora por elle; e é a afflicção que eu sinto quando me lembro das afflicções com que meu marido se separou da filha...
—E de vós, não?!—redarguiu elle com perfida admiração.
—Parecia querer perdoar-me n'essa hora...
—Bem. Perguntae-lhe se vos perdôa. Se elle vos disser que sim, ide, e contae commigo. Lembro-vos, comtudo, que em Madrid Domingos Leite é recebido como homem brioso que matou um padre, amante de sua mulher: e que o sr. D. Filippe IV, attendendo aos merecimentos de tal façanha, o honrou com o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Não sei se elle vos acceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou em Portugal e Hespanha; e estou em crêr que Maria Isabel, tão mal considerada em Madrid, não quererá apparecer aos admiradores de seu marido.