—Esse boato é uma calumnia, senhor!—exclamou ella com os olhos sêccos e o rubor nas faces.

—Não m'o digaes a mim, que eu já vol-o disse. Li o processo com o maior empenho; quiz salvar vosso marido; já vêdes que se alguem duvida da vossa innocencia de esposa, não sou eu. Como quer que seja, em materia tão melindrosa, não sei nem devo aconselhar. Fazei o que bem vos apraza. Repito: escreva Maria Isabel a seu marido, e dê a carta ao meu secretario de estado Antonio Cavide, que elle a fará entregar directamente a Domingos Leite, e a resposta, se vier, ser-vos-ha entregue.

—Ah!—suspirou a formosa—se o meu nome anda tão infamado em Madrid, meu marido não me responde... Elle desprezava-me, quando toda a gente ignorava a minha desgraça; que fará agora que é maior deshonra para elle reconciliar-se commigo!..

—Quem sabe? O coração humano faz mudanças de que não sabemos dar causa nem rasão. Nada se perde em lhe sondardes o animo. Escrevei-lhe hoje, que amanhã Antonio Cavide, ou alguem com recado seu, irá procurar vossa carta.

E, voltando-se para a menina, perguntou:

—Como te chamas, linda?

—Angela—respondeu a creança.

—Criada de vossa magestade—accrescentou a mãe muito desvanecida da regia curiosidade.

—Pois que dizeis que é minha criada—volveu D. João IV—minha criada fica sendo desde hoje, e virá exercer o seu officio, quando a edade lh'o permittir. No emtanto, o seu nome será registrado no livro das açafatas da rainha, desde já.

—Ajoelha a sua magestade, e pede-lhe licença para lhe beijar a mão—disse Maria Isabel com transporte.