D. João IV, encaracolando o bigode louro, e palmeando na espaciosa fronte, clamava enthusiasta:

—Que mulher! que mulher! Bem me dizia o marquez... Não ha dama no paço que lhe ganhe!.. Oh! que soberba creatura! tem musica na voz a feiticeira! Nunca vi coisa assim, nem viva nem pintada!

Cavide ria-se e esfregava as mãos.

—Isto não é para rir, meu caro!..—obstou o rei—Querem vêr que eu estou apaixonado!..

N'este lance grave, que as expressões do rei e a cara do valido tornavam ridiculo, o pagem disse por detraz do reposteiro que o moço da estribeira enviára dizer que a liteira das açafatas estava no pateo do norte.

—Vá! ordenou o rei ao secretario.

Antonio Cavide entrou na sala, onde ficára Maria Isabel, e inclinando a cabeça, disse:

—Sigam-me vossas senhorias.[5]

E, descendo ao pateo onde estava a liteira com lacaios de libré da casa real, deu a mão a Maria Isabel para ajudal-a a subir.

—Eu vim a pé...—gaguejou a mulher de Domingos Leite, não percebendo o convite do fidalgo.