—Ámanhã!—disse Maria Isabel—Já ámanhã!... Mas eu ainda não escrevi...Como hade ser?

—Ainda tem v. s.ª muito tempo. Eu voltarei mais tarde, ou mandarei um escudeiro procurar a carta—remediou o secretario.

—Jesus!—murmurou ella, com ademanes de afflicta.

—Que tem a sr.ª D. Maria?—volveu Cavide.

—Não sei... não sei em que termos heide escrever a meu marido...

—Comprehendo o seu embaraço... que em verdade é justificadissimo. Devo dizer-lhe, senhora minha, que o que passou entre el-rei meu amo e v. s.ª, me não é de todo estranho. Tambem eu, pensando durante a noite no segredo que é mister haver, respeito á mercê que el-rei lhe faz, mal posso ligar a ida de v. s.ª para Hespanha sem que seu marido conheça a origem dos recursos, e até a real intervenção na remessa da carta. O sr. D. João IV, meu amo, d'esta vez não conciliou a generosidade de seu real animo, com a circumspecção que lhe é habitual. Quer-me parecer que v. s.ª deu todo pezo ás considerações que sua magestade lhe fez, e eu tambem tive a honra de ouvir-lh'as. Desde que o sr. Domingos Leite, fugindo para Castella, deu ansa á calumnia que denigre a reputação de sua mulher, parece, até certo ponto, que protestou diante do mundo não receber mais em sua companhia uma esposa, que lá e cá—malditas linguas!—passa por ter faltado á honra conjugal.

—Mentira!—interrompeu Maria Isabel assomada.

—Mentira atroz—assentiu Cavide—Sabe-o el-rei, sei-o eu, sabem-no os ministros em cuja alçada corre a devassa; mas os praguentos querem que as atoardas se propaguem bastante aleivosas para que lhes seja mais farto o sêvo da maledicencia. A nossa questão não é a calumnia; é sabermos como v. s.ª hade affrontal-a, como seu marido hade desfazêl-a, se lhe quizer perdoar; emfim, como a sr.ª D. Maria, minha senhora, hade illibar-se perante o mundo. Aqui é que bate o ponto. Por isso dizia eu agora que comprehendo os embaraços em que v. s.ª hade achar-se no modo de escrever a seu marido.

—Tem v. s.ª rasão.—confirmou Maria Isabel—Pensei n'isso tudo que me disse, e estive duas horas a começar cartas e a rasgal-as, porque tudo me parecia máo... não sei como heide sahir d'este aperto!...

—Peço venia para lhe dar um conselho...—disse Antonio Cavide, erguendo-se, aproximando-se d'ella mais á puridade, e abaixando o tom da voz.