Antonio Cavide ergueu-se e caminhou para onde tinha o chapéo emplumado. Pegou d'elle, e sacudindo-o, á maneira de leque, entre as mãos, veiu ao pé de Maria Isabel, que se havia levantado.

—Recebo as determinações da sr.ª D. Maria Isabel, minha senhora. Mandarei ou virei em demanda da carta, quando se dignar ordenar-m'o.

—A carta?.. —perguntou ella—Pois não me aconselhou que não escrevesse?

—Não ousei tanto, minha senhora; aconselhei-a tão sómente a que me permittisse consultar el-rei meu amo; porém, depois do segredo que confiei á sua honra, quanto aos sentimentos de sua magestade, e depois de assistir á magua que taes sentimentos lhe occasionaram, receio que v. s.ª não queira que o seu destino dependa da vontade d'el-rei...

—El-rei decerto não quer a minha desgraça...—balbuciou ella.

—Quizera elle, senhora, dar-lhe n'este mundo venturas que os anjos do céo lhe invejassem...

Maria Isabel declinou os olhos ao rosto da filha, que parecia querer com a fixidez do olhar supprir a mingua do entendimento.

E, n'este lance, as lagrimas abrolharam a torrentes, porque, ao lado da cabeça de Angela, figurou-se-lhe vêr o rosto do marido, perdido por ella, e, áquella hora, talvez, traspassado de saudades de sua filha.

Ai! aquella mãe e esposa presentiu que havia de escorregar á voragem das deshonradas, embora resvalasse por ladeira de ouro, e lhe pozessem á flor do seu pégo de lama uma corôa de rei!


XIV