—El-rei quer-lhe como não quiz a ninguem n'este mundo. A vontade do meu real amo é que v. s.ª não vá para Hespanha; e eu, que conheço quanto el-rei soffreria, se a sr.ª D. Maria partisse, rogo-lhe encarecidamente que não vá.
A menina já estava ao pé do secretario com o cofre, quando Maria Isabel, proferidas as ultimas palavras, pegou de enfiar e tremer a ponto que Angela lhe disse assustada:
—Que tem, minha mãesinha, que está tão amarella?
E, ao mesmo tempo, o subtil alcayote, examinando os embrexados da caixa japoneza, resmuneava:
—Que formoso lavor! que linda coisa!.. É alfaia do tempo do sr. rei D. Manuel. Cá tem a esphera armilar! Bellissima joia!..
E, lançando de soslaio a vista a D. Maria, murmurou como se conversasse com as figuras chinezas embutidas no cofre:
—Não cuidei que lhe dava novidade; nem que a novidade, se o fosse, a inquietasse tanto! Seria triste se eu a magoava, pensando que lhe trazia o maior contentamento que pode dar-se á primeira fidalga da côrte portugueza.
Angela ouvia e não percebia as palavras, quando a mãe, abraçando-se n'ella com estremecido affôgo, resudava nas palpebras cerradas uma, ou talvez duas lagrimas que deviam ser—oh materialidade!—a cristalina seiva das fibras do pudor, as quaes viriam a depauperar-se em resultado d'aquelle perdimento de vida.
—Aqui tem, minha açafatasinha—ajuntou o secretario de estado, entregando o cofre a Angela—Esta caixa cheia de perolas e diamantes não valeria tanto como as duas lagrimas que sua mãesinha tem nos olhos. E eu bem sei o coração em que ellas vão cahir e doer...
Maria Isabel permanecia com a face apoiada na mão, o cotovello no braço da cadeira, os olhos velados pelas sedeudas pestanas, e com uma lagrima que, derivando, se quedára tremula no canto dos labios.