—Tem vm.ce esta chave que é da minha casa na rua dos Vinagreiros, e est'outra da casa em que eu morava na rua das Olarias.[7] Sirva-se da casa que melhor lhe quadre, ou de ambas, para as suas sortidas nocturnas. Se vir que os quadrilheiros o suspeitam em uma, vá esconder-se na outra: isto é no caso de que o santo-officio as não haja sequestrado; mas presumo que não, por que eu, apenas soube que um meu parente remoto foi preso, escapuli-me com o melhor e mais portatil dos meus haveres, comprando muito cara a passagem nas fronteiras ao conde de S. Lourenço, que é um honrado christão velho, desde que o hebreu Lafeta conquistou foros de christão mais velho que o proprio Christo. ([Nota 21.ª])
O israelita, cuidando que preparava dias alegres e resignados ao seu amigo, despenhava-o da esperança na ultima paragem da perdição.
Participou Domingos Leite a Roque da Cunha o seu designio.
—O diabo arma-as!—contraveio Roque—Não vás, doido! Tu não sabes onde te vaes metter... Olha que em Lisboa já se sabe que és cavalleiro de Christo em Hespanha, e que os ministros de Filippe IV são teus amigos.
—Mal os conheço...
—Porque foges d'elles, ingrato! e foges d'elles porque a tua perdição te chama a Portugal.
—O que Deus quizer. Não me despersuades. Vou buscar minha filha. Se me prenderem, se me matarem, é-me indifferente acabar de um golpe ou agonisar n'esta arrastada tortura da saudade. Um favor te peço.
—Que vá comtigo? Nego-me. Matei um homem, por que a tua honra m'o exigiu; deixar-me agora matar, porque és um fraco, um piegas, que não póde viver sem a filha, isso é que não assigno.
—Espera, homem, que eu ainda te não disse o que pretendia—replicou bem humorado Domingos Leite.
—Dize lá, então.