—Quero que obtenhas uma ordem para que o marquez de Molinguen, governador das armas em Badajoz, me dê passo franco para Portugal.

—Isso te arranjo eu. E dinheiro, queres?

—Não. Achei aqui um portuguez que me soccorreu, um christão-novo.

—E despresas os soccorros dos christãos-velhos! Ora queira Deus que o tal judeu te não leve ao calvario como fizeram ao seu rei. Como se chama elle?

—Desculpa-me: pediu-me segredo da sua passagem por Castella.

—E tu, Domingos Leite Pereira, tens segredos para Roque da Cunha?

—E para meu pae que me pedisse o nome de um homem que confia tanto nos dominicos de Lisboa como nos de Madrid. Os segredos da minha deshonra, revelei-t'os; os da consciencia alheia não devo, nem posso.

—Nem eu quero sabel-os. Foi mera curiosidade que me levou a perguntar-te o nome do teu banqueiro hebreu. Leva-te grande onzena?

—Não. O juro das esmolas recebe-se no ceu.

—A pagal-os lá, todas as burras judaicas da Hollanda vazaria eu a juro de 200 por cento ao mez!—volveu cascalhando Roque, e accrescentou:—Quando partes?