Entre diversas aventuras referiu o arrebatado patriota que os seus bens eram a paga de uma boa acção; porém mesquinha paga; pois que se elle podesse contal-a em dias de liberdade para a patria, os portuguezes deveriam ladrilhar-lhe de ouro as ruas por onde passasse. Expendido o caso, depois de o exordiar com o enfaze de um Sc½vola, disse que fôra elle quem matára com um tiro de pistola Pedro Barbosa de Luna, desembargador da casa da supplicação, pai de Miguel de Vasconcellos. Deste homicidio havia elle cobrado alguns mil cruzados: e, posto que o mandante fôsse um opulento mercador que assim vingava a justiça de um pleito postergada pelo desembargador, Roque da Cunha recebêra os tantos mil cruzados com os olhos postos na patria captiva. ([Nota 5.ª])
Este feito, com outros significativos de esforço e destemor, captaram a indole de Domingos Leite propensa á admiração da bravura que em Roque da Cunha era realçada por intendimento e graça no desplante com que assoalhava os vicios ao seu unico amigo.
Tal era o companheiro escolhido nas mensagens arriscadas de Evora e de Madrid. E tanto Domingos Leite encareceu depois os serviços do amigo, na volta a Portugal, que vingou leval-o comsigo a Villa Viçosa, e apresental-o ao duque, no acto de lhe entregar cartas dos fidalgos com a noticia dos planos discutidos no palacio dos Almadas.
III
O que o leitor sabe sobejamente da historia seria impertinencia repetir-lh'o no romance.
A revolução de 1640 é tão fallada, desde a escola de instrucção primaria até ás festividades rhetoricas de cada 1.º de dezembro, que a pessoa intelligente em cuja mão este livrinho tem o prestimo de a livrar de ler outro peor, me está pedindo que dê vivas á independencia nacional e passe ávante.
Seja assim, para agradar a V. Ex.ª e não defraudar historiadores que não tem, quando historiam, analoga consideração com os novellistas.
O duque de Bragança era já D. João IV; e Domingos Leite Pereira, desde Janeiro de 1641, era escrivão da correição do civel da corte, logar que rendia para mais de trezentos mil reis—quantia valiosissima n'aquelle tempo. Além d'isso fôra-lhe facultado arrendar o officio e continuar exercendo o posto de secretario do marquez de Gouvêa, mordomo-mór de el-rei, e do seu conselho de estado e despacho. O marquez, indo semanalmente á côrte, levava comsigo no coche o seu secretario: e bem que o deixasse na sala da espera, algumas vezes o rei admittiu ao gabinete de despacho o diserto moço folgando de o ouvir remedar alguns bassos e tiples da capella real da princeza Margarida. É notorio que D. João IV foi muito caroavel de musica; e, sendo analphabeto em quasi tudo, publicou em 1649 uma Defesa da musica em lingua castelhana, para dar bom exemplo de patriotismo aos escriptores coevos. ([Nota 6.ª]) Concorriam em Domingos Leite Pereira predicados bastantes a distinguirem-no. As meninas cazadoiras viam o rapaz de vinte trez annos, esbelto, valoroso, bemquisto dos fidalgos, estimado de el-rei. Os paes d'estas meninas viam o escrivão da correição do civel, o secretario do conselheiro de estado, o mancebo fadado para coisas grandes.
Nem sequer uma leve mancha de judeu, mulato, ou mouro na candidez de tantos meritos! nem fama publica de vicios, em epoca tão eivada da corrupção da mocidade! Bastava a honrar-lhe os creditos de bom christão ser elle sobrinho de fr. Gaspar de Sancta Thereza, já prior de franciscanos, e tão bom patriota que havia sido elle o primeiro que déra a ideia de despregar o braço de Jezus crucificado afim de persuadir ao povo revolto no 1.º de dezembro que a imagem do Redemptor desencravára a mão da haste da cruz para abençoar o povo que lhe estendia os devotos braços banhados de sangue!
O manuscripto que vai architectando este livro, ao entrar no periodo amoroso de Domingos Leite, diz singelamente: «sahiram-lhe muitos cazamentos.» E, nomeando algumas noivas de nascimento illustre, repára e nota que o escrivão do civel se esquivasse a aparentar-se com familias primaciaes regeitando a neta de um bispo do Funchal, que era muito parenta da casa de Bragança e descendente de reis. ([Nota 7.ª])