Passava então por ser uma das mais lindas mulheres da classe media, em Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricasso da rua dos Tanoeiros, João Bernardes, de alcunha o Traga-malhas. Aos quinze annos era a moça tão tentadora, os fidalgos tão tentadiços, e a honra das familias tão menosprezada, que a mãe de Maria Izabel fez voto ao sancto Antonio de fr. Bartholomeu dos Martyres accender-lhe luz toda a noute para que lhe vigiasse a filha emquanto ella fosse solteira: tamanha era a falta de illuminação e policia na rua dos Tanoeiros em 1639! ([Nota 8.ª])

Como era filha unica e seus pais contavam bons vinte mil cruzados em moeda, Maria teve mestre de escripta em casa—um padre de boa fama, do qual ao diante daremos ampla e funesta noticia. Formosa, rica e esclarecida, por consequencia um optimo cazamento para filho segundo de caza illustre, e o mais que podia ambicionar Domingos Leite.

Foi o tio fr. Gaspar quem lhe fallou o cazamento, por ser muito da familia Traga-malhas, e director espiritual da mãe da noiva.

Maria, ao principio, balbuciava respostas evasivas a respeito de cazar-se; porém, quando viu Domingos Leite, e o ouviu dizer-lhe umas palavras tão candidas que mais o pareciam pelo que o rosto respiráva de amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente.

No entretanto, quando tudo era alegria na familia, Maria Isabel escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao sancto Antonio do sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. Lá ao diante, formará o leitor conceito da natureza do milagre solicitado, e então verá que tal era elle que o sancto, se o não fez, foi por que realmente não pôde.

O escrivão do civel da corte recebeu os emboras dos amigos mais ou menos invejosos, quando annunciou o seu noivado com a filha do Traga-malhas; e redobrou a inveja das congratulações ao saber-se que o rico tanoeiro dotára a filha com dez mil cruzados. Ora para aproximadamente computarmos o valor de dez mil cruzados n'aquelle anno de 1642, basta saber-se que, no anno anterior, o mais opulento negociante de Lisboa, Pedro de Baeça, thesoureiro da alfandega, condemnado á morte em supplicios atrozes, como cumplice na conjuração de alguns fidalgos contra D. João IV, offereceu em troca da vida a enorme quantia de trinta mil cruzados!

Domingos Leite Pereira foi presenteado com rica baixela de prata pelo rei, quando alfaiava a sua casa no sitio chamado o Salvador. O marquez de Gouvêa assistiu como padrinho do cazamento, e o prelado franciscano deu a benção nupcial aos conjuges, e uma preciosa gargantilha de diamantes á esposada, por ordem de sua irmã, e de seu cunhado, pais do desposado.

Principiou na alcôva conjugal, quando os anjos do amor e da ventura deviam vedar os umbraes d'ella á tristeza e á desgraça, uma secretissima lucta de desconfiança e lagrimas, de invectivas affrontosas e juramentos de mãos erguidas. Quem diria que, áquella hora alta da noite, uma formosa mulher, com as tranças desatadas em serpentes pelas espaduas convulsas, ajoelhava aos pés do marido, e, lavada em lagrimas, soluçava:

—Eu te juro que nunca amei outro homem! Não intendo as perguntas que me fazes! Fui creada no regaço de minha mãe! Nunca sahi de casa senão para a igreja, e sempre com minha mãe! Os homens que para mim olhavam uma vez não me tornavam a ver... Não me perguntes se amei alguem n'este mundo, que mettes a tua alma no inferno, e me dás vontade de me ir afogar no Tejo com a minha vergonha!..

Já se vai vendo que o padre Sancto Antonio do nicho assistia de longe e neutral a este lance.