A luz do dia seguinte não alvorejou na alma entenebrecida de Domingos Leite Pereira. Apenas rompeu a manhã, o noivo sahiu do thalamo como de um cavalete de tractos, e foi em direitura procurar o seu antigo mestre de pharmacia Estevão de Lima. Admittido á escrevaninha do matutino boticario do Hospital real, revelou no rosto livido o febril anceio de intender as anomalias possiveis na estructura do corpo humano. Disse elle ao sabio em poucas e tartamudas palavras a ignorancia que o atormentava.

Estevão de Lima ouviu-o cabeceando, baixou os oculos da testa sobre o promontorio do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou João Rodrigues de Castello Branco) Abraham Nehemias, Thomaz Rodrigues da Veiga, Antonio Luiz, João Valverde, Garcia Lopes, Averroes, Affonso Rodrigues de Guevara.

Quando desempoava o ultimo, affirmou o douto boticario:

—Este physico é chavão na materia, se bem me recordo.

E, percorrendo a lista alphabetica das coisas notaveis, poz o dedo infallivel na questão subjeita, e disse ao offegante interlocutor:

—Veja isso a paginas 488, columna 1.ª

O contheudo da columna 1.ª da pagina 488 da obra admiravel, chamada De re anatomica, não se reproduz, em respeito ás damas que se dispensam de saber anatomia, apezar da senhora Deraisme, certa adversaria conspicua de Dumas, para a qual o saber sciencias da organisação humana é coisa util ás damas maridadas.

Qualquer que fosse, porém, o contexto da pagina consoladora, é certo que na face de Domingos Leite transpareceu a claridade da interior alegria, e tanto era o desafogo, e desoppresso o respirar do moço, que se abraçou no seu antigo mestre, exclamando:

—Vossa mercê apagou-me o inferno da alma, e tirou-me da mão o ferro uxoricida!

—Ó mentecapto!—volveu Estevão de Lima—Quem querias tu matar?!