—Diz V. Ex.ª optimamente—obtemperou Antonio Cavide—Vou vestir-me, e saio em direitura para Alcantara a procurar Maria Isabel. Não sei se poderei vel-a, porque el-rei está hoje a caçar na tapada do palacio, e a sua Diana deu agora em querer segurar a tréla dos falcões—ajuntou o velhaco sorrindo—No entanto, aguardarei o ensejo de me ver a só com ella. V. Ex.ª conhece o genio de el-rei. Se eu lhe digo que o temerario Domingos Leite, affrontando a justiça, ousou metter-se em Lisboa, temos na rua os corregedores todos com a sua matilha de esbirros na piugada do pobre homem, que será aperreado depois do que nós sabemos...
Aqui arregaçou o secretario outro riso infame e prosseguiu:
—O melhor será que ella diga a el-rei que de seu moto proprio envia a pequena ao pai. El-rei não lh'o impede, porque a presença da creança o estorva; e as coisas feitas assim ficam excellentemente feitas.
—Muito bem—concordou contentissimo o mordomo-mór—A que horas calcula V. S.ª poder responder-me?
—Ás duas da tarde devo estar de volta de Alcantara. O Domingos Leite está hospede de V. Ex.ª?
—Não, sr—respondeu ingenuamente o marquez—disse-me que se recolhera á rua dos Vinagreiros, e eu fiquei de me encontrar com elle á noite, ou avisal-o hoje de qualquer nova.
—Pois eu vou satisfazer a V. Ex.ª; entretanto, esse infeliz que tenha cuidado sobre si, porque de Madrid tem vindo confidencias a el-rei muito aggravantes para Domingos Leite e para o tal Roque da Cunha, que assassinou o padre Silveira. Eu ouvi dizer a Gaspar de Faria Severim que, precisando de um fino espião em Madrid, o patife mais ajustado ao intento era o tal Roque da Cunha; e sua magestade, que conhece os mais egregios malandrins de Portugal e conquistas, approva o alvitre. Domingos Leite que se precate... Isto revéllo eu muito á puridade a V. Ex.ª por saber quanto esse desafortunado homem lhe é agradavel, e os bons serviços que elle fez na restauração, escrevendo e fallando nas juntas do padre Nicolau da Maya.
Retirou-se o marquez muito agradecido e esperançado no bom exito da sua discreta ideia.
Antonio Cavide foi sem detença a Alcantara, apeou á porta do palacio real, e soube que elrei estava almoçando. Perguntou se sua magestade era sosinho; e, como lhe respondessem affirmativamente, deixou o côche, e foi a pé em demanda de um palacete contiguo ao mosteiro das religiosas do Calvario.
Residia ahi Maria Isabel Traga-malhas com sua filha, criadas e pagens. A visinhança não a presumia theuda do monarcha. O fausto do viver justificava-o naturalmente a fama dos seus teres. Dizia-se que a desgraça do ex-escrivão do civel, seu marido, fôra causa d'aquella retirada para longe do concurso da gente, e que o avisinhar-se de mosteiro tão rigoroso era já indicio de profunda piedade a que se acolhiam enormes desgostos. Isto resava a opinião publica que resa sempre bem.