D. João IV recebia Maria Isabel, a horas mortas, por uma porta do extremo da tapada. Ás vezes, passavam-se dias inteiros sem que sua magestade alvorotasse os gamos e veados da floresta; outras vezes, o real caçador, com a escopeta atravessada sobre as pernas, e a fronte pendida ao seio da sua Diana, como dizia o secretario, ouvia os gorgeios dos rouxinoes emboscados nos olmedos e espinheiros. A opinião publica não dizia isto: era Antonio Cavide, e mais algum fidalgo da intima confiança do rei, que o segredavam entre si.
Annunciou-se o ministro a Maria Isabel. Sahiu a recebêl-o a açafatasinha, e d'ahi a pouco a mãe com semblante de quem se espantava e assustava da visita.
Expoz Cavide a sua mensagem, segundo o plano convencionado com o marquez. Interrompera-o ella com exclamações, com esterismos, já corando, já empalidecendo; quando, porém, o expositor chegou ao ponto essencial, aconselhando a entrega da menina, Maria Isabel replicou inflexivelmente que não dava sua filha, e que ninguem lh'a arrancaria dos braços.
Desanimou o agenciador, receando desvaliar-se aos olhos de el-rei nos olhos da sua amante. Pediu perdão de a ter aconselhado, beijou-lhe mesureiramente a mão, e ergueu-se para sahir.
Perguntou-lhe, ao retirar-se, Maria Isabel se seu marido se alojára na casa do Salvador. Respondeu Cavide que lhe constava estar Domingos Leite na rua dos Vinagreiros.
Antes de duas horas da tarde, o marquez sabia que as diligencias do secretario se malograram. Tergiversou entre desenganar e esperançar Domingos Leite. Venceu-se alfim do mais generoso pensamento, resolvendo ir pessoalmente fallar com Maria Isabel, calculando reduzil-a com o vaticinio das funestas consequencias da sua recusação.
Quando ás quatro horas da tarde a procurou, a dama era fóra de casa, posto que a sua aia dissesse estar de cama com subito incommodo. Maria Isabel, sem prevenir o seu real amante, nem usar grandes resalvas de honestidade, entrou no atrio do palacio com Angela pela mão, e foi conduzida reverentemente ás salas.
D. João IV, mais contente que sobresaltado da inesperada visita, foi receber a gentil comborça ainda mal enchuta das lagrimas. Referiu ella com entrecortadas vozes, sem pejo da filha, e quasi deitada nos braços do rei, o que passára com Antonio Cavide, e concluiu mostrando-se receosa e até certissima de que Domingos Leite, não lhe tirando a filha, seria capaz de matal-a. Era sincera no seu terror.
Tranquillisou-a o rei; e, sem medear tempo, mandou chamar Antonio Cavide. Apartou-se com elle, e deu-lhe ordens rapidas. Ao cahir da noute, o secretario d'estado entrava em Lisboa, a tempo que o marquez, por palpite de maior desgraça, sabendo que o valido fôra chamado a Alcantara, o estava esperando no seu palacio.
Cavide, vendo o mordomo-mor na sua sala de espera, acercou-se d'elle, e disse-lhe ao ouvido: