—Não ha tempo a perder. V. Ex.ª saiba corresponder a esta confidencia... Domingos Leite que se esconda, que fuja, porque vai ser preso. Adeus. Vou procurar o conde de Odemira; vou cumprir ordens d'el-rei. O amor é o diabo, sr. marquez, o amor é o diabo! Estas Dalilas tosquiam o nosso Sansão, e queira Deus que o templo se não alúa sobre elle e sobre nós...

—Biltre!—disse de si comsigo o marquez.

Era noute cerrada.

O mordomo-mór só confiou de si o melindroso aviso. Disfarçou-se com a maior precaução, e foi á porta do Salvador.

Domingos Leite esperava ainda alguma nova, quando o escudeiro abriu a porta ao desconhecido, que se intitulou enviado da pessoa que já ali tinha mandado recado a seu amo.

Esquivava-se a dar-lhe entrada, quando Leite Pereira reconheceu a vóz do marquez. Subiram para o primeiro sobrado. A terrivel noticia revelava-se no aspecto do consternado fidalgo. Domingos comprehendeu-o.

—Nada feito, sr. marquez?

—Nada feito. Serei breve porque o tempo urge. Cavide fallou a Maria Isabel na entrega da filha. Foi repellido. Quiz eu experimentar a condição d'essa mulher. Procurei-a; mas não estava em caza. Devia estar com el-rei. Perto da noute soube que o conde de Odemira ia ser encarregado da sua prizão.

—Ainda bem!—exclamou Domingos Leite—Quero ser prezo!

—Não diga absurdos, que me faz arrepender de lhe votar tamanha amisade! Quer ser preso! para que?