—Direi entre ferros quem é o rei de Portugal!

—Não dirá nada entre ferros, porque ha mordaças. De sobra sabia Francisco de Lucena quem era D. João IV, e nada disse, morrendo innocentissimo, e D. João IV de sobra sabia que Lucena morria innocente... e deixou-o morrer. ([Nota 22.ª]) Não me conteste nem resista, que perde o unico amigo que tem no reino. Fuja sem demora. Vá para Madrid, se não prefere antes ir para França. Eu, á força de idear traças de lhe restituir sua filha, heide conseguil-o cedo ou tarde. Espero commover o rei, pintando-lhe a dor do infeliz marido e pae...

—De modo nenhum!—obstou Domingos Leite com azedume—Peço-lhe que me não avilte, sr. marquez! Deixe-me morrer com dignidade! Não quero a misericordia do tyranno, do adultero, do devasso, que eu por entre punhaes de castelhanos e de portuguezes acclamei em Evora. Não quero d'esse homem senão um saldo de contas que se hão de liquidar...

Sio!—atalhou o marquez, tapando-lhe a bôcca, e sopesando os cabellos que se lhe irriçavam de terror na fronte gelada.—Cale-se, mentecapto!... cale-se! que, senão, eu maldigo a hora em que vim aqui!..

—Perdão, meu nobre amigo!—volveu Domingos Leite—Se v. ex.ª se arrepende de vir aqui, repêso me sinto eu tambem de o haver procurado. Entretanto, como v. ex.ª se me figura traspassado de um certo horror de cumplicidade nos meus propositos de vingança, o meu dever é preserval-o de susto, retirando-me ámanhã para Castella.

—Ámanhã não, hoje, é urgentissimo que seja hoje; porque, ao raiar da manhã, esta casa póde ser rodeada de quadrilheiros.

—Em tal caso vou retirar-me para outra casa que tenho, e sahirei d'ella ao romper do dia.

—Vae para a rua dos Vinagreiros?

—Não, senhor marquez... E, quando fosse, quem denunciou o meu esconderijo da rua dos Vinagreiros?!

—Fui eu por imperdoavel imprudencia a Antonio de Cavide. Cuidei que o tinha compadecido, e hoje receio que elle dirija para lá e para aqui ao mesmo tempo os aguasis.