Rebelde á rasão e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para Amsterdão, quando o medo da inquisição de Hespanha o forçou. Era immensa a tristeza do christão-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe seguissem.

Roque da Cunha não podia ser estranho á desventura do seu amigo, já por que Domingos lh'a referira, já porque os faccionarios de Filippe IV em Portugal a transmittiram para lá com o intento de aviltar o monarcha, violador adultero da honra dos seus mais serviçaes acclamadores.

Roque era o portador das lastimas de sua mãe e dos fidalgos ao desgraçado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir ameaças de morte a D. João IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou:

—Viva Deus! que afinal topei um homem! Quantas vezes, Domingos, quantas vezes eu tenho dito cá muito commigo: «Se Maria Isabel fosse minha mulher, o duque de Bragança, que me deshonrou, havia de morrer tres vezes ás minhas mãos, visto que o padre Luiz morreu uma, não me tendo feito mal nenhum! A mim, na verdade, assombrava-me que este nobre desejo de vingança te não houvesse passado ardente pela alma como um raio da justiça divina! Ainda hontem D. Luiz de Alencastre, irmão do marquez de Porto Seguro, me disse: «E que faz esse brioso Domingos Leite que não espeta dous pelouros no peito do real bandalho que lhe paga os serviços, tomando-lhe a mulher como quem compra com quatro sequins uma fregona do bêcco da Madragôa! Que faz esse homem de honrados figados que matou um padre, pela innocente rasão de ter amado uma mulher primeiro do que elle!» E esta, meu querido amigo, é a linguagem de Diogo Soares, do conde de Figueiró, de Francisco Leitão, e até... queres que te diga tudo? el-rei Filippe IV, que tem sido o exemplo dos reis continentes, quando tal soube, disse: «É bem feito que o mateiro de Villa Viçosa faça os seus vassallos veados, já que alguns d'elles entenderam que o melhor rei seria o mais destro e certeiro matador de porcos-espinhos. É bem feito que Domingos Leite receba alvará de Cornelio tacito para dignamente escrever os Fastos do seu real amo!...» Aqui tens ouro fio o pezo que está fazendo na opinião de Castella o teu infortunio. Ora imagina agora, amigo meu, com que jubilo eu não direi ámanhã a D. Luiz de Alencastre: «Pode v. ex.ª dizer a el-rei nosso Senhor que Domingos Leite hade vingar-se de modo que a posteridade o aponte aos reis devassos como aponta o punhal de Bruto aos tyrannos de Roma!»

—Melhor é que não digas nada,—observou glacialmente Domingos Leite—Eu tanto despreso as censuras como os applausos. Se eu matar D. João IV, não me hei de glorificar com os gabos nem descorar na presença dos verdugos...

—Dos verdugos!—acudiu Roque—Se te expozesses ao alcance da corda ou do cutello, serias honrado, mas parvo. Se queres vingança com gloria e reputação de sensato, é mister que o homem morra, e que tu fiques a ouvir-lhe gargantear o de profundis. Alem de que, se a tua heroica idéa fermentar, eu heide ser ouvido, e sócio da aventura...

—Não quero cumplices—disse Domingos Leite.

—Nem amigos? Dize isso aos outros: não o digas a Roque da Cunha, réo de homicidio, na pessoa do muito reverendo thesoureiro de S. Mamede, que Deus conserve á porta inferi, esperando a alma de cantaro de D. João de Bragança. Amigo,—proseguiu, abraçando-o, e recuando o peito para lhe vêr de fito o rosto—Se queres só para ti a gloria de matar o amante de tua mulher, justo é que a tenhas; não serei eu que a dispute á coragem e ao pundonor da tua justiça; porem, quando essa conjunctura venha a realisar-se, Roque da Cunha hade estar á tua beira; por modo, que se a desaventura te fizer cambapé, ambos nós tombemos ao mesmo abysmo. Quem te falla assim, ou hade ser teu cumplice, ou teu inimigo. Escolhe.

—Sabes o que eu escolheria, se me fosse permittido escolher? A morte; o adormecer, e não acordar; o esquecer-me subitamente d'esta minha execravel situação.

—Temos sesão de fraquesa? Vá lá! Os leões tambem tremem suas maleitas. Não me assusta esse desalento... Ámanhã, quando eu aqui voltar á tua charneca, heide achar essa alma remoçada, e o plano feito. Medita, que eu tambem vou escogitar o meu traçado. Espero que o meu seja o mais acceitavel, porque calculo com animo frio, como os estrategicos que escrevem no quartel da saude a arte da guerra. Domingos Leite Pereira, ouve lá o que eu te digo: Tens nas tuas mãos o destino de Portugal! E serás um dos primeiros da tua patria, se o quizeres ser.