Domingos Leite sorriu-se motejando o enthusiasmo prophetico d'aquelle que ás vezes se lhe pintava infernalmente necessario á sua existencia.
N'aquella noite infinita, a ira, a paixão, fora-lhe exulcerada pelas zombeteiras declamações de Roque da Cunha. A publicidade do seu vexame, e a mofa com que o apodavam de transigente no opprobrio, era cauterio que lhe afogueava as dores. Instantes de desafogo tinha apenas os que a phantasia sinistra lhe pintava, se diante d'ella via escabujar D. João IV, nas vascas da morte como outro qualquer homem. Ponderando no que era e seria sempre sua vida,—engolphando-se na treva que todos os passos lhe negrejava pelo futuro alem,—pareceu-lhe que matar o rei, e deixar-se matar sem soltar gemido de covarde angustia, seria a mais brilhante e redemptora solução de sua desgraça.
Aclarava o dia seguinte, e já Roque da Cunha batia á porta da casa campestre de Domingos Leite.
Radiou intima alegria no aspeito do marido de Maria Izabel. Um homem bom, um consolador christão, ser-lhe-hia repugnante, depois d'aquella insomnia de febril raiva e espectaculos fantasticos de sangue e patibulos. O unico homem competente á sua desesperação era Roque. Abraçou-o com arrebatada ternura, e exclamou:
—Heide matal-o!
—Isso sabia eu...—disse o outro friamente.—Resta saber como.
—Pensaste?
—A noite toda. São cinco horas e meia. Bem sabes que é meu costume levantar-me ás dez, quando durmo o somno do justo. Não dormi nada. Estive com Diogo Soares até ás onze, com o conde de Figueiró até á meia noite, com D. Luiz de Haro até á uma, com meu padrasto até ás duas, e d'ahi em diante commigo só, e agora comtigo para te dizer o que vais ouvir...
—Toda essa gente—interrompeu Domingos Leite—está, por tanto, no segredo dos meus projectos?...
—Assim como estava no segredo das tuas desventuras.