O plano de Diogo Soares foi levemente alterado, segundo deprehendemos da descripção particularisada do Ms. que reza assim: «A morada de casas que primeiro alugou Simão Serges está em um bêcco fronteiro á Capella mayor de S. Nicolau; e por um passadiço sahe a outro bêcco que desemboca na Tinturaria e cinge por aquella parte a Tornoaria; e além d'estas alugou mais tres moradas, umas que dizem para a Tinturaria, e outras que fazem a revolta da rua dos Torneiros, e as ultimas no recanto d'esta rua, que faz desegualdade a outro canto de Quebra-Costas.»

Conseguido o despejo dos quatro prédios, Domingos Leite e Roque da Cunha alojaram-se no Bêcco de Ponce de Leão, na noite de 20 de maio, sem encontro que lhes desfalcasse a coragem. Serges proveu-os dos viveres necessarios, ferramenta e tudo que os dispensasse de sahirem.

O trabalho interior de demolir e construir communicação de umas para outras casas era pezado para mãos mimosas e não callejadas na alavanca e picarêta. Como os planos dos sobrados eram desiguaes, ao romperem as paredes mestras tiveram de escadear a passagem d'uns aos outros, e cobrir os envazamentos com tal artificio que, se os procurassem na primeira casa, não se lobrigassem vestigios de passagem para a immediata. Quanto ao melhor local para abertura de setteiras, escolheram uma esquina que dominava toda a rua dos Torneiros e parte da Correaria, resolvendo descarregar sobre o rei pelas espaldas; e abriram outra, conforme o plano de Madrid, para, em conjunctura melhormente proporcionada, lhe atirarem de frente.

Estes preparativos estavam concluidos em 15 de junho, com poucas ferias de repouso, e nem o minimo ruido que motivasse a curiosidade dos visinhos.

Em algumas das noites decorridas, Domingos Leite quiz sahir com o disfarce de atafoneiro; mas Roque embargava-lhe o passo com reflexões de prudencial severidade. Figurara-se-lhe possivel vêr, acaso, a filha estremecida. Escutando o coração, o pae de Angela decifrava no vago terror que lá lh'o innoitecia que nunca mais havia de vêl-a! Enganava-se. Tinha de vêl-a um instante, e esse seria o derradeiro e unico.

Todavia, se Domingos Leite, na noite de 19 de junho, se confundisse na multidão que enchia o Terreiro do Paço, veria Maria Isabel e Angela, recostadas nos almadraques de uma liteira, a gozarem o espectaculo das columnas resplendentes de lampadarios de christal que era costume accenderem-se n'aquella praça, na do Rocio, e em todas as ruas percorridas pela procissão do Corpo de Deus. Depois, iria no rasto da litteira pela rua Aurea, pela dos Mercadores, dos Ourives da prata, dos Escudeiros, dos Odreiros, da Almada, das Portas de Santa Catharina, de S. José, com os seus trinta palacios estrellados de luminarias, e pela Calçada do Combro, onde o palacio do Monteiro-mór excedia os mais sumptuosos na bellesa da illuminação. Por todas estas ruas abobadadas de esteira, com figurações christãs e pagãs nos remates de cada cunhal, poderia Domingos Leite seguir a litteira de sua mulher, vêr a espaços o rosto alegre da filha, debruçada na portinhola perguntando á mãe a significação das estranhas figuras debuxadas nos guadalmecins e paineis que tapizavam as paredes e balcões das sacadas. E, depois, ahi por volta da meia noite, seguil-a-hia ao longo do bairro da Marinha, estrada de Alcantara, até que, apagado o clarão dos lustres que alumiavam, se acingisse á liteira e apunhalasse a esposa, e sobraçasse a filha, e a devorasse de beijos, e morresse n'aquelle extasis!

Mas, a essa hora de tumultuosa alegria, Domingos Leite, depois de ceia, encostou os cotovellos á meza, apoiou a barba entre as mãos, e disse a Roque da Cunha:

—Parece-me que foi Leonidas, na vespera da passagem das Thermopilas, que disse aos trezentos companheiros da sua funesta façanha, depois de jantar: «hoje aqui jantamos, e iremos cear ao reino de Plutão.» Onde iremos nós cear ámanhã?

—D'aqui trez leguas: á estalagem da Povoa de D. Martinho, onde ainda ha um velho Malaga, que os portuguezes bebem para matar a sêde do sangue de castelhanos—respondeu Roque sorrindo.

—Vamos marcar os nossos postos—volveu o commendador de S. Maria de Valdestillas.