—Estão marcados.
—Ainda não. Onde hasde tu estar quando eu atirar ao rei?
—Aonde? aqui.
—Não quero. Ao pé de mim, não. Se eu for agarrado, quero ver-me sósinho, face a face do algoz. Se o homem morrer, e eu me evadir, não disputarei o teu quinhão de gloria n'este feito. Dirás em Madrid, e eu confirmarei, que tu estavas ao meu lado, com o pé na beira do meu abysmo, com o pescoço exposto ao mesmo esparto, com as mãos debaixo do mesmo cutello. A hora é excellente para sahires d'aqui por entre o povo que enche as ruas. Os cavallos, a esta hora, devem estar na Ameixoeira, segundo combinamos com o marquez de Molinguen. Vai tu pernoitar á Ameixoeira, e ámanhã, por volta do meio dia, parte com elles e espera-me no Postigo da Senhora da Graça. Se eu lá não estiver antes das tres, foge, porque então estarei preso ou morto.
—Mas...
—Não questionemos. Isto é resolução feita e inalteravel. Tenho-te dito que não quero cumplices; e, se guardei para esta hora o declarar-t'o formalmente, foi por evitar contestações então, e agora muito mais, que é tarde para discutir. Vamos. A pé e sahir. Dá cá um abraço. Até ámanhã de tarde, ou... até... nunca mais. Viverei ou morrerei agradecido á tua dedicação. Ingrato e atrozmente egoista seria eu, se arriscasse a tua cabeça n'um desaggravo da minha honra. Se eu morrer, se me não vires mais, dize ao rei d'Hespanha que o alvará da commenda com que nobilitou minha resalva de assassino o desfiz em buchas para a escopêta com que me elle brindou. E adeus!
Roque da Cunha abraçou-o sem commoção sensivel. Para esta frieza concorria a crua rigidez de sua compleição e a esperança do bom exito da entrepreza. Se Domingos Leite lograsse penetrar-lhe nas cavernas do peito, veria lá dentro assomos de jubilo. Desde que o dia 20 de junho se aproximava, Roque meditava absôrto e pávido no trance do tiro, nos paroxismos do rei, no torvelinho do povo, na grita de milhares de vozes, no arrombarem-se as portas, na linha de alabardeiros cintando as ruas, na sua propria cara a delatar o crime, nos crimes impunes da sua proterva historia—em fim, na forca.
Se um homem n'estas condições ousaria prever que um historiographo portuguez, seculo e meio depois, escreveria d'elle: ... cheio de confusão e honra!
Pois houve! O leitor verá que n'esta sua, tão sua e minha querida terra, temos historiadores que denominam a incestuosa mulher de Pedro II rainha prudentissima (veja o sr. conselheiro Antonio José Viale, na sua Historia) e Roque da Cunha homem cheio de confusão e honra. (Veja Roque Ferreira Lobo na sua Historia da acclamação de D. João IV.)