Ás dez da noute sahira Roque. Ás onze já Domingos Leite, vestido de feitio que nenhum traço arguia o aparaltado do escrivão do civel, parava no largo da Porta do Salvador, contemplando a casa immersa em trevas, que nenhum pontinho luminoso interceptava. Que fazia alli?
Fantasiára que o seu velho criado lá estaria, não obstante lhe dizer Roque da Cunha que a justiça lhe dera tractos até saber onde o amo se escondia; e, sendo assim, de certo o expulsaria Maria Isabel.
Ajustou-se á frontaria da caza, e tocou no postigo da fresta, chamando Bernardo.
N'este lance, pessoa que elle não vira em uma janella a refrigerar-se na aragem da noite, disse com voz senil:
—Ahi não mora ninguem.
Domingos estremeceu; mas, cobrando animo com a probabilidade de segurança de nenhum perigo, perguntou:
—Sabe dizer-me onde está um homem que aqui morava ha coisa de dois mezes?
A pessoa interrogada não respondeu; retrahiu-se da janella, e fechou-a. Domingos Leite, ouvindo o bater das portadas, não podia perceber a descortezia ou qualquer outro sentimento de quem quer que fosse, e principiava a censurar-se da indiscreta pergunta, quando uma porta rodou vagarosamente, e voz tremula de dentro disse anciadamente:
—Entre, entre depressa...
Domingos reconheceu a voz de Bernardo.