Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade, resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao castello de S. Julião da Barra.

João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter; chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, e chamal-o á sua presença.

Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a deportação para Abrantes.

Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:

«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em cada dia:—Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho, d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes que eu perca a fé na misericordia Divina.» «—Minha mãe debulhava-se em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae... Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.

«Napoles—Maio 15 de 1831.

«Do teu

Alvaro.»

Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio da vingança.

Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro violento de Miguel de Sotto-Mayor.

As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares phreneticos da morgada.

XI

C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti
qu'elle remerciait tous les
soirs, de son esprit, et qu'elle le
priait, tons les matins, de la préserver
des erreurs de son cœur.