—Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem, por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.

Isto entendeu elle que era puro byronianismo; o dono da casa, porém, é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em lençoes de vinho.

Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.

Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.

A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.

Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes, sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de sobejar-te tempo de seres feliz—dizia-lhe o pae—Teu primo não póde demorar-se... Que te diz elle nas cartas?»

—Diz que o tio está cada vez peor.

—Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.

—E que dirá meu primo—replicava ella—vendo-me reclusa n'um convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos que eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer; e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.

—A tua fama não está manchada—volveu o pae—Teu primo de certo perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não tenham succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!