Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger o infinito dos juizos divinos.
Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.
Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e em menos de dous annos—eram-lhe escassos para viver limpamente os rendimentos d'ella.
No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza, reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella, quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.
Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e consequencias d'ella.
Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro, desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da pintura.
No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.
Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto, perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.
Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não traziam planos de completarem sua ruina.
Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito: