Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.
Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:
—Estes pontinhos que significam?
—Nada, minha prima.
—Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me escrevêl-o sobre as reticencias?
—Escreve—disse Alvaro risonho.
Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:
«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos, n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a, porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla nos sonhos, me disser: Sou eu. A tua Leonor era o amor da innocencia; e eu sou a mulher da paixão.»
—Aqui tens—disse ella—Agora, sim; está completa a pagina.
Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse: