—Foi por alli que ella sahiu—ajuntou Alvaro; mas a ultima palavra proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.

O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco. Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno. Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça, impulsada pelos braços de Maria da Gloria.

—A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho—exclamou a mãe.

Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e sentou-se, escondendo nas mãos a face.

—Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?—tornou Maria da Gloria—Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?

—Não me falle, minha mãe—disse Alvaro com energia—A que vem Deus aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.

Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos, quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta ordem, ergueu-se, e disse chorando:

—Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!...

Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:

—E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não morrerás, não, Alvaro?