Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas, pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.
Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e rematou pedindo-lhe novas de seu primo.
—Nunca mais o vi—disse elle—consta-me, porém, que vive muito triste, e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de Santarem. Pobre rapaz!...
—Mas não morreu!—acudiu Leonor.—Todas as paixões assim são, meu pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo, não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á outra. Ora aqui tem, meu pae!
—Parece-me que tens razão, filha...—disse Sebastião de Brito, tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao escarlate.
XIV
... Que direz vous de l'indigence?
MONTAIGNE (Essais.)
Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh'o não quizerem dar por caridade.»
Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu: