—Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas.
O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era aquella.
Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos, descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.
Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra, se os credores t'o não quizerem dar por caridade.»
Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia, habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa, requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no livro da secretaria.
N'este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos, e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão por um enlace matrimonial dos filhos ambos.
Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho, respondeu:
—Quem castiga é Deus.
O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob condição de ficarem n'elle como inquilinos por tempo de tres annos os devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de Brito depositario d'ella.
N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.