Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme; porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama corria desluzida e mareada á conta d'elle. Aquelles passeios nocturnos, nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor dizia serem a sua mulher: exigencias do soffrimento; exigencias de intenção ruim é que elles eram.

Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo. Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas. Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.

O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.

Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora, apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois d'alguns segundos.

Eu de mim não tiro conclusões algumas d'esta luz; mas o morgado tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d'onde fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d'um punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito.

—Morres, se gritas!—disse o morgado com a postura e phrase de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para Lucrecia—Morres—continuou elle com voz soturna—se me não dizes o que significa o signal que tens ido dar á janella com a luz!

A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.

Decorreram tres noites depois d'esta.

Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe. Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder enfrear o seu ciume.

Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia: