Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas! A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:

Héritiers des douleurs, victimes de la vie,
Non, non, n'espérez pas que rage assouvie
Endorme le Malheur,
Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense
Engloutisse à jamais dans l'éternel silence
L'éternelle douleur!

E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!

E todos os outros mestres de bardos melancolicos?

Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!

Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a veneranda calva com seu barrete de troçal preto.

Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S. Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»—ao corpo entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as cousas, e muitas outras.

Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio, e este primeiro capitulo deve lêr-se.

Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela de aço reluzente.

Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga, marchetada de madre-pérola.