—Póde fumar á sua vontade, se fuma—disse-me elle.

Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira, que elle não aceitou.

Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma do heroico inimigo dos tyrannos.

—A moral!—dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto se vaporou—a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.

Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura, a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos maus e dos males da vida.

Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza, contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor! Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o feliz?

Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:

—Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?

—A Santarem.

—É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só d'este mundo, não dura mais que uma hora.