—Ha quantos annos eu lá não fui!...—continuou o padre no tom magoado de entranhada saudade—E já agora é tarde... é o anoitecer da vida...

—Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!—interrompi eu.

—É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas lagrimas; e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.

—Creio que tem—disse eu—é vêr e amar essas vidas em Deus, chamal-as em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das lagrimas...

—E da oração...—disse o padre, e proseguiu, depois de breve silencio—Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo...

E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos longas e ossudas sobre o peito.

Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação, cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles parecem intelligentes e desgraçados.

—Fica no «Poço do Bispo?»—perguntei.

—Não senhor; vou para os «Olivaes.»

—A passeio, ou é de lá?