—Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas pittorescas, em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos nós comtigo?
Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:
—Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se na humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o riso e vacca de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta do Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de pedir a Deus o descanço da minha alma.
Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria, que de si deixou, com a justiça humana.
—Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro Teixeira, e não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa; mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a palavra «amigo.»
—Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão—Que o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem consultar o raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem, que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipathia de um primeiro encontro.
—Como se chama?
Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba por syllaba, e depois exclamou de repente:
—Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos. Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria. Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.
—É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: vinte paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...