—Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, feliz culpa, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados defensores da exclusiva razão do catholicismo...

N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os «Olivaes.»

Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção.

—E portanto...—disse elle—Adeus, meu amigo, não ha tempo para mais.

—E portanto—disse eu—não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas pittorescas ruinas dos «Olivaes.»

—Fica!—exclamou elle com alegria—Pois bem haja!

Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.

Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou, segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e ainda assim a boa escolha.

—Ora vamos lá—disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se ao meu braço—Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e, depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes, outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?...

—Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.