—Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos annos me faz?
—Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.
—Não, senhor: tenho quarenta e seis.
Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra! Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a tua essencia de anjo.
Este era o seu refugio, o seu descanço.
Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)
A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.
No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler. Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro beijo do sol, e disse:
«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu, comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu Sardanapalo!»
Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.