Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um bastião, resmoneou:

«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.

Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.

Outro caso:

Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção:

—Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a couve lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras annuaes.

Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao Matta, ou á Taverna ingleza.

Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.

Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.

As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»