A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé, amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes. Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.

Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso, alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.

Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario, através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das armas do tecto.

Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.

—Não se impaciente, senhora Eufemia,—disse o padre.—Ande lá de seu vagar, que nós não temos pressa.

—Valha-me Deus!—disse a velha afreimada—este berzabum do negalho parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosario se foi imbelinhar!

A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando o padre pacientemente desenredava a cambulhada.

D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala, cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.

Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago. Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs como á competencia com as cigarras.

Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do edificio.