—Quem vive n'aquella bonita casa?—perguntei eu.
—Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa—respondeu o padre—Foi dos que foram donos d'esta em que vivo...
Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida, se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação, era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.
Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho para mim, disse:
—Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que lhe dou. Venha d'ahi.
Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas dos «Olivaes.»
—Já sabe—disse o padre—que tem de fazer aqui penitencia da irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.
—Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!—disse eu sem simular o enthusiasmo—A poesia está aqui!
—A poesia dos prophetas de Jerusalem;—atalhou o levita—a poesia das lagrimas...
—E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos desventurados n'este mundo!—acrescentei eu, enlevado no meu rapto de cinco minutos—Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que—é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida, e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de si é que está a salvação. Em Deus é que...