Em Deus—interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a felicidade, o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, não acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as consequencias. Se a felicidade—a da consciencia, entendo—é obra do acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta! Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo, protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar. O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola d'outra luz, se não a Deus?

Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no ermo; bom é, porém, que não venham aqui ungir os braços para sairem de novo á arena. O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe eu se tem horas de jantar acostumadas.

Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas soleiras de duas portas.

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No has visto mas?... Vuelve á la
pradera, hijo mio, por que hay en
ella cosas mas dignas de tu
atención.........................

Dios estaba en medio de los campos.
No le has visto? A él debe la
pradera su belleza; las miradas
de Dios animabam la claridad del
sol..........................
No has oido mas que él murmullo
de los arroyos, et gorgéo de las
aves, y el viento que mecía las ramas
de los árboles? Vuelvebe al
bosque, hijo mio, porque tus oidos
percibiran cosas mucho mas grandes...

ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de
la primera edad.)

Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever, despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle remançoso descanço do corpo e socego de espirito.

A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois edulçora os azedumes de largos annos.

Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa. Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella, já com as mãos erguidas.

Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:

—Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar. Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro...