—Logo, minha mãe, logo...—respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.
—E por que não ha-de ser já?!—redarguiu Maria da Gloria com gravidade—Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa arvore produziu fructos tão maus!?
Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns monossyllabos.
—São aberrações—proseguiu ella—Não lhe ouviste dizer á pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a fortuna te dá.
Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.
O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da antiga locataria do palacio de Belem:
—Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e levem as lições da desgraça para a conservarem.
D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com exclamações e lagrimas.
—As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos—disse Alvaro—Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe vejo no rosto.
D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me respondeu: