—Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.
Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira sahir.
Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:
—Sua excellencia manda sahir.
Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.
Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.
Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.
—A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!—disse a criada—Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!
—Trazes-me a esmola?—disse Leonor com desabrimento—Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.
Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege de praça, e deu ordens ao boleeiro.