Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles extasis!
—Vejo os teus dezoito annos, Leonor!—disse-lhe elle um dia.
—Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o coração!—respondeu ella—A primeira paralysia era a peor...
Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:
—Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje escondido de ti o unico segredo, que devia esconder—a sensivel aproximação do meu fim.
—Que é, minha mãe?!—exclamou o filho, correndo a abraçal-a.
—Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te dizer o fim para que te chamei!...
—Diga, minha mãe...—atalhou Alvaro com simulada quietação.
—Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te amortalhará, meu pobre Alvaro!?
—Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe—respondeu elle tranquillamente após alguns instantes de concentração—Agora, rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.