No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, já em seu periodo final.

Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que vem assim intitulado: Demonstração da equidade da Providencia para com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação dos seus soffrimentos.

Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações horriveis, que poucos sabem supportar.»

—Não leias mais, filha...—disse Maria da Gloria—conta-nos o que fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres annos que lá não tinhas ido!... Com quem fallaste, filho?

—Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar algum tempo para negocios nossos.

—Algum tempo!—disse Leonor—e com que placidez de espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?

—São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha demora o mais que possa...

—Soubeste—atalhou Maria—se teem sido cumpridas as nossas determinações?

—As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me que a vejo reanimada!...

—Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora?