Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a mão de leve no rosto, e murmurou:
—Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe... Nossa, de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer a Deus.
Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada de Leonor, e sahiu.
No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.
Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes. Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia d'ella.»
Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!
N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira amortalhado no seu habito.
É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a decrepidez.
Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.
Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era encontrarem-se na presença de Deus.