Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.

Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.

—Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um amigo—disse o padre—Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quizera ter-lhe escripto este romance que o «Manual d'Epicteto» ou a «Imitação de Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o mundano, o penitente, o christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser tudo isto, é ainda mais, é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não ser o de Job: Homo natus de muliere..., repletus multis miseriis «homem, nascido da mulher, acervo de miserias sem conto.»

—Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a desculpem?—atalhei eu.

—Porque não? faça.

—Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não ha?

—Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,—perdôe-me a profanidade—mas as veredas muito differentes.

Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:

—Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. Não é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem «Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.

—Mereço eu tanto?!—disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.